Janaina Pereira

outubro 28, 2008

Negócios em série

Filed under: Economia — janapereira @ 2:31 pm

Eles são curiosos, determinados e sabem aproveitar as oportunidades. Conheça algumas histórias de empreendedores seriais, pessoas que acumulam negócios e experiências de gestão

Janaina Pereira, revista Meu Próprio Negócio, edição 57 – setembro/2007

O que é ser um empreendedor? Muitos o definem como a pessoa capaz de identificar e aproveitar uma oportunidade, transformando-a em negócio de sucesso, ou como alguém que faz acontecer, assumindo riscos calculados. Assim como existem diferentes definições para os empreendedores, eles também são identificados por diversos tipos. Um deles é o empreendedor serial, conhecido por não se contentar em abrir apenas um negócio próprio. O serial pode ser aquele que inicia uma empresa, cuida por um período e depois segue para nova iniciativa, ou alguém que administra vários negócios ao mesmo tempo. O mais importante para esse tipo de empreendedor é não deixar as oportundidades passarem.

Desde a adolescência o empresário carioca Ricardo Bellino já demonstrava uma veia empreendedora precoce. Na escola ou entre amigos, estava sempre atento as oportunidades de negócios. Sua estréia como empreendedor foi aos 21 anos. Frequentador de desfiles de moda, teve a idéia de implantar no Brasil uma filial da Elite, a maior agência de modelos do mundo. Bellino apostou em seu feeling, abandonou a faculdade de economia, mudou-se para São Paulo e iniciou uma longa jornada até conseguir convencer John Casablancas, dono da Elite, a trazer a agência para o Brasil. Mesmo sem falar inglês, contactou Casablancas através de um telex, traduzido por um amigo. Sem dinheiro, propôs ser o representante brasileiro da Elite, trazendo para o país o concurso de modelos da agência, arranjando patrocinadores, capitalizando e montando a empresa. Casablancas gostou da idéia e assim Bellino iniciava seu primeiro negócio bem-sucedido.

Com a experiência adquirida, partiu para novas iniciativas, como trazer para o Brasil a campanha americana Fashion Targets Breast Cancer que, na versão nacional, transformou-se na campanha O Câncer de Mama no Alvo da Moda, sucesso até hoje. Também fez parceria com Donald Trump para a construção de um empreendimento no país, tornando-se o primeiro parceiro comercial brasileiro de Trump. Todos os negócios partiram de idéias de Bellino, que percebe o potencial de determinados segmentos e resolve investir no projeto. “O meu perfil profissional é o de um dealmaker. Gosto de ter idéias, de implantá-las, de reunir todas as condições necessárias para que se transformem em empreendimentos bem-sucedidos e, depois dessa fase, sinto que minha missão foi cumprida e que é hora de buscar novos desafios”, diz.

Para identificar se um negócio é interessante e vale a pena investir nele, o empresário aponta fatores que devem ser analisados. “Intuição e experiência contam, porém, é necessário verificar o contexto e se o novo negócio preenche uma lacuna, se há um nicho importante que está sendo ignorado pelo mercado, mas que possui potencial suficiente para ser explorado. Não se trata de reinventar a roda, de ter alguma idéia mirabolante, mas de fazer a coisa certa, na hora certa, para o público certo. É preciso saber identificar e aproveitar oportunidades”, informa, ressaltando que idéias todos têm, mas executá-las é o mais difícil. “É preciso estudar todos os prós e contras, encontrar as pessoas certas, buscar recursos e investimentos, enfim, tirar o projeto do papel, onde tudo é muito bonito, e começar de fato sua construção, tijolo por tijolo.” Bellino acredita também que empenho, energia e criatividade são importantes para transformar idéias em negócios de sucesso. “O comprometimento não é full time, mas full life. Eu tenho coragem de assumir riscos. Nunca me contentei em ficar numa posição segura e confortável. Sempre quis ir mais além”, conta.

A vocação empreendedora rendeu a Ricardo Bellino outros frutos. O empresário é autor de diversos livros sobre negócios, entre eles Três Minutos Para o Sucesso, lançado em mais de dez países. Ele também é o criador do Inemp ( Instituto do Empreendedor), entidade sem fins lucrativos que apóia a atividade empreendedora. “Acredito que, se cada brasileiro se tornar um empreendedor, e intra-empreendedor, que é o empreendedor de carteira assinada, poderemos mudar nossa realidade para melhor.”

No momento, todas as atenções de Bellino estão voltadas para seu novo negócio, as Casas Brasil. Trata-se de uma iniciativa inédita que permitirá aos mais de dois milhões de imigrantes brasileiros que moram nos EUA comprarem diversos bens no Brasil, de eletrodomésticos à casa própria. O perfil serial do empresário segue a todo vapor. “O empreendedor serial é quase um bipolar em potencial, revezando momentos de apreensão e expectativa com instantes de puro júbilo. É preciso aprender a lidar com isso para não sobrecarregar a família e os amigos”, analisa.

Homem de negócios

O que você está fazendo agora?” Essa é a pergunta mais comum na vida do empresário André Nudelman. Aos 49 anos, ele já abriu 32 empresas somente no Brasil e teve mais de 100 sócios, em segmentos como agricultura, alimentação, financeiro e marketing. “Meu pai morreu quando eu tinha 20 anos. Eu estudava direito, mas larguei para cuidar do negócio da família, uma avicultura. Minha visão empreendedora vem de casa”, conta Nudelman, afirmando que ser um empreendedor serial é quase patológico. “É uma necessidade de criar novos negócios. Mas tão importante quanto o ímpeto de abrir o negócio é saber a hora de fechar.” Em alguns casos, o fechamento de suas empresas esteve relacionado a resultados. Em outros, ele simplesmente identificou uma nova oportunidade e passou adiante o que tinha em mãos.

Seu primeiro emprego, com CTPS (Carteira de Trabalho e Previdência Social), foi aos 30 anos. Mesmo sendo dono de suas empresas, viu a oportunidade de fazer carreira numa multinacional, mas de olho no mercado empreendedor.“Li algumas pesquisas sobre empreendimentos que deram certo e a maioria era montada por executivos que tinham saído de empresas conceituadas. Achei que, para conseguir sucesso num negócio próprio, deveria passar pela experiência de trabalhar numa grande empresa.”

Após a vivência como funcionário, Nudelman voltou aos empreendimentos. Atualmente mora no Canadá, onde é responsável por três negócios. Um deles é o sistema Maple Bear de educação infantil bilíngüe, que o Canadian Education Centre desenvolve para cinco continentes, onde exerce a função de presidente para a América Latina; uma empresa de comércio exterior e uma consultoria. No Brasil, além de representar o sistema Maple Bear, tem uma empresa de consultoria especializada em franquias, a Addexo. Apesar de ser um empreendedor serial há muitos anos, ele diz que a família e os amigos ainda estranham o acúmulo de funções, embora hoje sejam mais compreensivos. “Essa busca permanente faz parte da minha personalidade, mas é restrita ao trabalho.”

Fase serial

Trabalhar em negócios paralelos foi, durante muitos anos, uma rotina para o empresário Sérgio Lacerda Ferraz. Ainda na época de estudante, montou um cursinho preparatório para vestibulares. Depois da formação universitária em Administração de Empresas, começou a trabalhar na área financeira ao mesmo tempo em que abria outros negócios. “Eu aproveitei as oportunidades que apareceram, pois tinha vontade de investir em algo próprio. Não abandonei de imediato meu emprego. Preferi acumular as atividades até achar o que eu iria investir definitivamente”, diz Ferraz.

Durante dez anos o empresário se dividiu entre o trabalho fixo e a administração de seu próprio restaurante. A rotina era dura, e, depois de um período de sucesso, o negócio começou a declinar. Ferraz desistiu da gastronomia e resolveu investir em novas áreas. Entre seus outros empreendimentos estão uma empresa de distribuição de papel e uma consultoria. Mas a vida de empreendedor serial acabou há 12 anos, quando montou a Gapnet Viagens e Turismo, em São Paulo, agência que comercializa passagens de companhias aéreas. “O turismo sempre me encantou. A agência exige dedicação integral e aos poucos eu fui deixando o trabalho fixo para ficar apenas com ela.” Hoje ele analisa sua fase serial como uma forma de encontrar o melhor empreendimento. “Foi um processo em busca da estabilidade. Sair do emprego para montar um negócio pode ser um êxito ou um fracasso, então tem que planejar essa mudança. Não há colocação para todos no mercado de trabalho, por isso sempre busquei ter algo meu. Investi em algumas áreas até achar uma em que me senti seguro”, conclui.

A hora da expansão

O empresário Raul Randon, presidente da Holding Randon S.A Implementos e Participações, do Rio Grande do Sul, está a frente de oito empresas das áreas de implementos rodoviários e ferroviários, veículos especiais, autopeças, sistemas automotivos e serviços. Todas são líderes nacionais de mercado nos segmentos em que atuam. Para ele, administrar vários negócios ao mesmo tempo é um grande desafio, mas é preciso profissionalizar a gestão para que cada empresa cresça e se desenvolva de maneira saudável. “Tem que estar atento às oportunidades e também aos riscos”, diz.

A primeira empresa do grupo foi criada em 1949, e a diversificação dos negócios se iniciou a partir de 1975, através de oportunidades surgidas no mercado de auto-peças. O empresário acha importante ter olhos e ouvidos para pressentir o momento de crescer, e estar atento ao mercado para investir em novos projetos, além de escolher parcerias que possam auxiliar na expansão dos negócios. “Eu trabalho desde muito cedo. Comecei ajudando o meu pai na ferraria, trabalhei com o meu irmão numa oficina mecânica e, depois de algum tempo, começamos a fabricar freios a ar, reboques e semi-reboques de três eixos. Trabalhamos bastante, crescemos um pouco, mas só percebemos o potencial do mercado para o transporte de carga durante nossa estréia numa feira no exterior. Para crescer na área de autopeças, por exemplo, era preciso buscar parcerias estratégicas externas e foi o que fizemos. Assim surgiram os outros negócios do grupo”, conta.

Não satisfeito em comandar empresas de sucesso, Randon decidiu se aventurar por outras áreas, mergulhando no mercado gastronômico. “Eu gosto muito de trabalhar. Então venho diariamente à empresa, cumpro compromissos, faço viagens, vou a eventos e cuido dos meus negócios em Vacaria, onde planto maçã, uva, produzo queijo, criação de suínos, e me envolvo com a terra na área de grãos – milho, soja e trigo. É muito bom”, comenta, acrescentando que essa paixão é antiga. “Sempre gostei de ver a terra responder com generosidade quando se planta uma muda ou um grão. Isto é muito prazeroso. Além disso, é um bom negócio, embora de alto risco, que dá muito trabalho e exige muita dedicação”, afirma. Apesar da satisfação pelos negócios em Vacaria, o empresário garante não ter preferência entre as empresas. “Todas são minhas filhas queridas e cada uma tem o seu encanto e a sua história.”

Randon ressalta que cada empreendimento tem sua própria estrutura física e gerencial, mas todos são controlados pela holding. “Cada um dos negócios tem o seu mercado, os seus clientes, muitos dos quais são clientes de todas as empresas Randon e, fruto desta coincidência de interesses e de mercados, uma também é fornecedora da outra”, diz. O empresário acha arriscado administrar vários negócios ao mesmo tempo mas acredita que deve-se estar preparado para enfrentar os períodos de fartura e de escassez. “E aí entra a necessidade de se ter tudo bem organizado, com gente competente para produzir e administrar”, conclui.

Aposta na diversidade

Durante dez anos, a empresária Magda Lopes Ribeiro foi diretora comercial de uma indústria de transmissores de rádio. Ao perceber que o mercado precisava de componentes eletrônicos para transmissores, resolveu abrir uma empresa neste segmento. Há 18 anos ela dirige a Magda Comunicações, em São Paulo, especializada em fornecer reposição de peças para transmissores de rádio e linhas de periféricos. “Tinha conhecimento de radiodifusor e uma relação de confiança com os clientes da indústria em que eu trabalhava. Aproveitei os contatos e montei meu negócio”, conta.

Um problema de saúde fez Magda dedicar algumas horas de seu dia à dança. O gosto pelos ritmos foi aumentando e a empresária resolveu diversificar, abrindo a Aerodance Núcleo de Dança, que está completando oito anos. “Quis levar uma melhoria de vida para outras pessoas. A dança ajuda a aliviar o stress, dinamiza o lado social, e tornou-se um complemento para minha vida.”

Hoje a empresária trabalha 16 horas por dia, dividindo-se entre seus dois negócios. “Antes os escritórios eram fora de casa, mas optei pelo home office para conciliar melhor minha rotina. Trabalho durante o dia na Magda Comunicações, que administro sozinha. À noite, eu e meu sócio, nos dedicamos às aulas da academia. A contabilidade das empresas é terceirizada, e isso facilita muito.” Mas, para dar conta de tudo, Magda impôs alguns limites. “Não trabalho nos finais de semana. Abri mão de dar aulas aos sábados para ficar com minha família. Eles acham que eu trabalho muito, mas o trabalho me complementa”, diz.

Sempre aberta à novas oportunidades, Magda Lopes Ribeiro já está de olho em um novo negócio: a exportação. “Quero exportar produtos genuinamente brasileiros para o mercado europeu. Já estou estudando italiano para começar a fazer meus contatos”, informa a empreendedora.

Oportunidades

O empreendedor serial está sempre atento a novas possibilidades de negócios e sabe identificar uma oportunidade. Foi o que aconteceu com o produtor cultural Paulo Miranda. Ele já era o dono da Oroboro Serviços e Projetos Culturais, do Rio de Janeiro, empresa para aprovação de projetos nas leis de incentivo fiscal, quando surgiu a chance de participar de um outro negócio. “Eu dividia um apartamento com um amigo e quando ele saiu, minhas despesas aumentaram. Eu moro em Santa Teresa, bairro turístico do Rio, e aqui atua uma empresa, a Cama e Café, que agencia casas de moradores para hospedagens do tipo Bed & Breakfast, de acordo com o modelo europeu e norte-americano. Como eu fiquei com um quarto livre, entrei em contato com eles e solicitei adesão à rede. Passei por um processo de qualificação e em três meses já estava recebendo meu primeiro casal de hóspedes, de São Paulo, para o Ano Novo de 2004”, conta.

Miranda acha que disciplina e organização são fundamentais para quem se dedica a mais de um empreendimento. “Tenho dois negócios funcionando em minha casa, sendo que a hospedagem eu cuido sozinho. Consigo separar ambos por conta das características bem diversas de cada um, mas o tempo que tenho para eles sempre parece pouco. Cuidar de uma empresa requer envolvimento completo com ela. Para hospedar turistas temos que dar uma atenção especial, afinal, são pessoas estranhas, que, a princípio, passam a morar com você por um período, às vezes até bem longo”, comenta o produtor cultural, que, pelo menos por enquanto, não pretende investir em outros empreendimentos. Mas, como todo empreendedor serial, não descarta essa possibilidade. Afinal, não dá para resistir a uma boa oportunidade quando ela bate a porta.

Como identificar o serial

O consultor José Dornelas está lançando o livro Empreendedorismo na Prática em que, após uma pesquisa de três anos com mais de 400 empresários de sucesso, identificou os tipos de empreendedores, entre eles, o serial. Dornelas acha que a motivação do empreendedor serial é o ato de abrir o negócio. “Ele consegue reconhecer a idéia, sabe como montar o processo, dedica-se à fase inicial. Alguns não conseguem lidar com várias coisas ao mesmo tempo e, por isso, só ficam na primeira fase da gestão. Mas o importante é não deixar a oportunidade passar.”

O consultor acredita que, com o mercado exigindo cada vez mais resultados, o empreendedor serial está se sobressaindo.”O cenário mudou, está tudo mais rápido e o serial aparece porque vende bem as idéias, tem networking, e sabe lidar com as pessoas.” Entre as principais características deste empreendedor, Dornelas aponta o feeling para detectar as oportunidades e a capacidade nata para montar uma equipe. “Esse tipo de empreendedor está à frente dos outros porque reconhece as oportunidades.”

COLABORARAM

Aerodance Núcleo de Dança, (11) 5031- 0271; Cama e Café, www.camaecafe.com.br, (21) 2224 – 5689, (21)2221-7635; Gapnet Viagens e Turismo, www.gapnet.com.br, (11) 3138- 1300; Holding Randon S.A Implementos e Participações, www.randon.com.br, (54)3209- 2000; Instituto do Empreendedor, www.inep.org; José Dornelas, www.josedornelas.com.br, (11)3129- 5671; Magda Comunicações, (11) 5031-9290; Maple Bear, www.maplebear.com.br, (11) 3891- 2202;
Oroboro Serviços e Projetos Culturais,
www.oroboro.com.br, (21) 2221-2155; Ricardo Bellino, (11) 3093 – 3992

1 Comentário »

  1. Parabéns pelo seu blog e pela sua estória de vida (digna de pelo menos uma mini-série)! Mas te dou uma dica de blogueiro como também sou, alimente bem todos os dias o blog com notícias diferenciadas e com a sua cara.
    Rumo às 5 mil visitações/mês.
    PhD Crivelaro
    Autor do blog dinheiroincrivel.wordpress.com

    Comentário por Crivelaro — outubro 29, 2008 @ 10:56 pm


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