Janaina Pereira

novembro 5, 2008

Negócio aconchegante

Filed under: Economia — janapereira @ 5:33 pm

Edredon, aquecedor, chocolate quente e um jeitinho de casa: esses são alguns itens que fazem das pousadas na serra um negócio atraente. Saiba como alguns empreendedores conquistaram este mercado

Janaina Pereira, revista Meu Próprio Negócio 62 – fevereiro / 2008

Montar uma pousada é o sonho de 10 entre 10 brasileiros”. Essa afirmação é de Roberto de Ávila Miranda, sócio da R. Miranda Formação Profissional, escola de gestão de negócios. Miranda fala com o conhecimento de quem criou o primeiro curso que ensina a montar pousadas, em 2001, e desde então já formou mais de 2.400 pessoas. “Todos acham que vão montar a pousada e relaxar, mas não é assim pois, como qualquer negócio, precisa de dedicação.”

Miranda aponta a infra-estrutura como a principal diferença entre a pousada na serra e a litorânea. “A maioria dos meus alunos pensa em montar uma pousada serrana, mas ela necessita de atrativos maiores. Com exceção de lugares como Campos do Jordão, onde a pousada não precisa oferecer almoço e jantar, nas demais localidades os empreendedores devem ter em mente como vão agradar o seu público-alvo”, explica. O consultor aponta os cinco tipos de público que podem ser atingidos: jovens (sozinhos ou em grupos), jovens casais, jovens famílias (casais entre 35 e 40 anos com filhos pequenos), famílias (casais mais velhos e com mais poder aquisitivo) e grandes famílias (casais que viajam em grupos, com amigos e parentes). Para cada perfil, a pousada a ser montada é diferente, por isso escolher o público é o primeiro passo para obter sucesso no negócio. “A pousada deve ter público cativo e fiel e precisa ser considerada a casa de final de semana de quem se hospeda. Hoje não há mais espaço para uma pousada, e sim para a pousada com personalidade única. Ela representa uma necessidade ou desejo do cliente, pode ser procurada para descanso ou lazer.”

Turismo

Miranda diz que as motivações turísticas facilitam o sucesso de uma pousada, o que faz a escolha do lugar em que ela será montada outro fator decisivo. “Às vezes a pessoa vê um local bonito, mas ermo. Não funciona montar a pousada em lugar assim. O turista não viaja para se hospedar, ele quer conhecer a região e a pousada é apenas um dos serviços que ele usa. Ela deve estar situada em uma bela localização, mas ter acesso.”

Roberto Miranda acrescenta que o termo pousada não se refere a algo pequeno, e sim a uma estrutura charmosa e impessoal, que ofereça exclusividade e atenção e seja mais flexível que um hotel. Para iniciar o investimento, o gasto é de, no mínimo, R$1 milhão, com retorno entre cinco e sete anos, tempo suficiente para saber se o negócio vai bem ou não, e despesas mensais de R$11 a R$18 mil. Para os novos empreendedores ele dá uma dica: montar uma pousada de, no mínimo, 15 apartamentos. “O custo para manter uma pousada de 10 apartamentos e uma de 15 é o mesmo, então deve-se começar com uma de maior porque vale mais a pena.”

De cliente a empreendedora

Bia Nogueira frequentava a Pousada do Sonho, em Canela (RS), desde 1999, e em há cinco anos, juntamente com o marido, realizou o sonho de ser dona do seu próprio negócio, passando de cliente a proprietária do local. A idéia do investimento veio a partir da simplicidade do negócio. “Uma pousada na serra deve ser, acima de tudo, aconchegante. Aquela coisa de cheirinho de casa de mãe, da certeza de ser bem recebido, de não ser um hóspede qualquer, mas ter um nome e, desde o momento em que você chega, ser recebido e tratado como alguém especial. Não precisa altas tecnologias, nada de extraordinário, apenas o mesmo que queremos quando chegamos em casa e estamos cansados ou com frio: uma cama limpa e cheirosa, água quente, um bom chuveiro, aquecimento no inverno e atenção em todas as estações do ano. Basicamente é isso. Não tem muito o que inovar ou inventar.”

Bia procura aproveitar ao máximo o alto fluxo turístico da região. “A serra possue, por natureza, uma característica marcante de sazonalidade. Aos poucos procura-se reverter essa realidade. No caso

específico da serra gaúcha, temos atrações para o ano inteiro, que vão desde trilhas e passeios ecológicos ao circuito das vinícolas. A gastronomia também é um ponto forte. Temos hóspedes que vêm todos os anos e retornam porque foram bem atendidos, tornaram-se amigos.” A empresária revela um dos segredos de sua pousada: o café da manhã com bolo caseiro, doce de morango mexido com colher de pau e café passado na hora. “São coisas simples que fazem toda a diferença. E o atendimento é um aspecto fundamental, desde o momento da reserva. Se você é bem atendido, até pequenos problemas deixam de ser relevantes. É exatamente isso que faz o hóspede retornar.”

A Pousada do Sonho tem 12 apartamentos equipados com itens importantes para quem opta em montar uma pousada serrana: calefação, água quente de caldeira, lençol térmico, ventilador de teto, ducha higiênica, TV a cabo, acesso à internet wireless, frigobar e quatro unidades com lareira individual. A gestão foca na redução de custos sem afetar o que é oferecido ao hóspede. “Não desperdiçamos energia elétrica, telefone e água. É como administrar um casa com muitos filhos e muitos cômodos.” Pronta para dar mais um diferencial aos seus clientes – os apartamentos estão sendo equipados com DVD – Bia conta que prefere não trabalhar com agência de turismo nem atender excursões. “Optamos pelo contato direto com o cliente e reservas através do nosso site.”

Aquecimento

Trabalhar com o comércio é uma tradição na família de Cláudio Roberto Sampaio. Ao perceber o aumento do turismo em Campos do Jordão (SP), ele não teve dúvidas: montou uma pousada. Foi assim que surgiu a Pousada Cantinho dos Anjos. Sampaio investiu cerca de R$500 mil para montá-la, e caprichou nos detalhes para atrair os turistas. “O diferencial maior é o aquecimento central de água e aquecedores de ambientes. Cobertores e edredons são essenciais. Alguns fatores são importantes na diferença de uma pousada serrana para uma litorânea, desde o tamanho dos guarda-roupas, pelo fato de que, no inverno, os hóspedes trazem casacos, jaquetas e blusas de lã, até o piso, que não pode ser frio. A limpeza é essencial, assim como o atendimento. Nossos hóspedes se sentem em casa.”

Para escolher o local onde iria montar sua pousada, Sampaio procurou um lugar de fácil localização, boa vizinhança, com poucos ruídos noturnos e vista para a natureza. Ciente de que a cidade fica repleta de turistas em julho e durante os feriados, preocupou-se com a baixa temporada para não ficar sem clientes. “Oferecemos pacotes especiais com algum adicional como, por exemplo, uma pizza como cortesia ao casal hospedado. É muito interessante e funciona. Guardar todos os e-mails recebidos e enviar promoções em mala-direta também atrai os turistas.”

Infra-estrutura

Débora Pieri Leonhardt e Paulo Leonhardt trabalharam por vários anos em grandes empresas, ocupando cargos-executivos. Um dia decidiram buscar um negócio que gerasse uma melhor qualidade de vida, com maior flexibilidade de tempo. Em Canela (RS), criaram a Pousada Cravo e Canela, localizada em uma residência histórica, com a decoração original da década de 1950.

O casal investiu na infra-estrutura, com suítes equipadas com calefação e internet wireless cortesia, estacionamento, áreas de lazer, café da manhã servido até o meio dia e um chá da tarde, com a típica comida colonial da Serra Gaúcha, incluso na diária. A preocupação em oferecer atrativos para os turistas vem das particularidades da pousada serrana. “As pousadas litorâneas podem ser mais casuais, com materiais menos sofisticados, pois as temperaturas variam de 20 a 35 graus durante o ano. Já nas serras, principalmente na gaúcha, as temperaturas durante o inverno podem se negativas e durante o verão podem chegar a 30 graus. Desta forma, temos que adaptar e investir em materiais que possam trabalhar sob estas condições”, diz Leonhardt.

Para manter a pousada sempre cheia, os empresários fazem pacotes onde oferecem atividades extras, agregando valor as diárias. “Também mantemos um banco de dados atualizado de clientes e agências de turismo para poder, ao longo do ano, enviar newsletter motivando os turistas a visitar-nos e usufruir da infra-estrutura da região e da pousada.”

Paulo Leonhardt alerta que o empreendedor que investe em pousadas deve ter uma visão a longo prazo e um plano de negócios desenvolvido, além de estar atento aos custos. “Uma pousada mais simples de 12 quartos, sem área de lazer e sem área verde, custa por volta de R$ 600 mil a R$ 1 milhão. Já uma pousada sofisticada, também de 12 quartos, com área de lazer e área verde, não custa menos do que R$ 2,5 milhões.”

Projeto

O empresário Francisco Bergamo revela que montar uma pousada era seu projeto de vida. Assim, criou a Pousada di Bergamo, em Canela (RS). Para manter o bom nível do atendimento, está sempre atualizado com as necessidades dos hóspedes através de pesquisas de satisfação. Como item importante para uma pousada serrana, ele aponta a garagem. “É importante no inverno pois garante o funcionamento do veículo no dia seguinte e o conforto em dias de chuva.”

Já Tereza Albuquerque optou por aproveitar instalações existentes e desde 2004 é sócia da Pousada Pelajo, em Teresópolis (RJ). O clima da cidade é propício para receber turistas nas férias de verão e inverno, além dos feriados. O grande diferencial da pousada, além de oferecer descontos e promoções, é apostar em eventos realizados na região. Tereza acredita que neste ramo não se faz escola, mas se aproveita um potencial. “Adaptar ou reformar um imóvel, adequando ao tamanho e conforto, é uma boa saída para esse tipo de negócio.”

Júlio Butuhy, professor do curso bacharelado em hotelaria do Centro Universitário do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), acredita que ter consciência do que se deseja no projeto é importante para o sucesso em qualquer empreendimento. “Não adianta abrir por impulso. Tem que ter conhecimento. Por mais que se queira fazer o investimento, tem que ter condições de fazê-lo.” O curso de hotelaria do Senac, voltado para criação de hotéis, resorts e pousadas, oferece disciplinas que ensinam a viabilizar e implantar os projetos, e são realizados exercícios em sala para que o aluno descubra se vale a pena montar o negócio. “Neste setor, é importante que o empreendedor saiba que a pousada é para o cliente, e não para ele.”

Como montar

No livro Como montar e administrar pousada, de Margarida Autran, Silvia de Souza Costa e Silvia Marta Vieira (Editora Senac Nacional), as autoras apresentam sugestões de como colocar em prática o sonho de montar uma pousada. Confira algumas dicas.

  • Definir as características do projeto como número de apartamentos, serviços (refeições ou apenas café da manhã), público-alvo, equipamentos e tipo de lazer a ser oferecido.

  • Pesquise se a região a ser montada a pousada não está saturada. Verifique também os atrativos naturais e o acesso.

  • Planeje o empreendimento, para estar ciente se ele é econicamente viável. Considere o valor das diárias, as despesas operacionais (salários, encargos, energia, manutenção), registro da marca e do domínio na internet, vistoria, inspeção sanitária e alvará.

  • Algumas instalações são indispensáveis como recepção, gerência, restaurante ou local para café da manhã, cozinha, dispensa, sala de estar e banheiro.

  • Em cada quarto é importante ter uma cama de casal ou duas de solteiro, criados-mudos, luminárias de cabeceira, armário com cabides, espelhos, acessórios para banheiro, quadros e objetos decorativos, tapetes, mesa e cadeira, telefone, cortinas e persianas.

COLABORARAM

Pousada di Bergamo, www.pousadadibergamo.com.br, (054) 3282-6696; Pousada Cantinho dos Anjos, www.pousadacantinhodosanjos.com.br, (012) 3664-4649; Pousada Cravo e Canela, www.pousadacravoecanela.com.br, (54) 3282-1120; Pousada Pelajo, www.pousadapelajo.com.br, (21)3473-6559, (21)8752-8788; Pousada do Sonho, www.pousadadosonho.com.br, (54) 3282-2669; R. Miranda Formação Profissional, www.robertomiranda.com.br, (11) 5081-4662; Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac)

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