Janaina Pereira

março 11, 2011

Andrucha Waddington

Filed under: Cinema,Cultura,Entrevistas — janapereira @ 10:43 pm

Ele está conquistando o mundo: o carioca Andrucha Waddington lança no Brasil seu primeiro projeto internacional, a superprodução Lope, e se firma como um dos nossos melhores cineastas

Por Janaina Pereira

O cinema brasileiro não exporta apenas filmes e atores; cada vez mais nossos diretores encontram espaço no disputado mercado internacional. Depois de Walter Salles e Fernando Meirelles, é a vez do carioca Andrucha Waddington trilhar este caminho. É ele quem dirige a co-produção Brasil/Espanha Lope, que estreia por aqui em 4 de março. O longa é a versão cinematográfica da biografia de Lope de Vega, autor barroco que é figura tão conhecida na Espanha quanto Miguel de Cervantes, escritor de Dom Quixote.
Andrucha, que como muitos diretores brasileiros começou dirigindo comerciais publicitários, chamou a atenção já em seu primeiro filme, Gêmeas (1999), baseado em conto de Nelson Rodrigues. Mas foi com Eu Tu Eles (2000) que se tornou um dos melhores diretores do cinema nacional. Nesta entrevista, o cineasta conta a sua trajetória e a primeira experiência no cinema internacional.
Travel Ace: Em que momento da sua vida você teve certeza que seria diretor de cinema?
Andrucha Waddington: Foi durante uma mostra do Bruñel, na faculdade Cândido Mendes, no Rio. Eu tinha uns 15 anos. Depois disso, aos 16 anos, fui fazer um curta-metragem que ficou horrível, daqueles que nem a mãe da gente que ver, sabe? Em seguida fiz estágio, montei a TV Búzios, que mesmo com pouco dinheiro consegui colocar no ar, e fui trabalhar com o Cacá Diegues.
TA: Que filmes foram inspiradores para sua carreira como cineasta?
AW: Vidas Secas, Limite, os filmes do Kubrick, do Antonioni, do Bruñel… são muitos diretores e fimes inesquecíveis.
TA: Você é sócio da Conspiração Filmes, uma das maiores produtoras do Brasil. Como foi o início da sua carreira como cineasta, deixando um pouco a publicidade para fazer seu primeiro filme, Gêmeas?
AW: Considero Gêmeas uma escola. Fizemos na Conspiração um projeto de filme de episódios, chamado Traição. E Gêmeas, que fazia parte desse projeto, acabou sendo lançado como um único filme. Transformei um conto de duas páginas do Nelson Rodrigues em um longa. Eu já tinha feito publicidade, documentários musicais, mas Gêmeas foi a minha universidade, com toda a equipe colaborando na base do amor e da amizade.
TA: Já naquela época você sonhava em fazer projetos internacionais?
AW: Isso nunca passou pela minha cabeça, foi uma coisa que surgiu naturalmente.
TA: Como aconteceu o convite para filmar Lope?
AW: Fui lançar Casa de Areia em Madri, em 2005, tive a oportunidade de ler o roteiro e fiquei encantado com a história. Eu queria fazer o filme de qualquer jeito. Tive quatro anos para me preparar, porque só começamos a filmar em 2009.
TA: No filme só temos dois atores brasileiros em cena, o Selton Mello e a Sônia Braga. Como foi dirigir um elenco basicamente de espanhóis?
AW: O cinema é uma linguagem universal. Tudo que preciso para fazer um filme é uma boa trama, bons atores, bom figurino, boa maquiagem. Tive oito semanas de ensaio com o elenco, o que me permitiu criar intimidade com eles, formamos uma parceria. Na hora das filmagens foi tudo tranquilo, a única diferença é que eu precisava falar em espanhol.
TA: Você sentiu algum preconceito por ser um brasileiro filmando a história de uma personalidade tão importante da Espanha?
AW: Aconteceu no começo, mas foi disperso. Parte da imprensa espanhola queria saber porque um diretor brasileiro se interessava por um personagem espanhol. Mas, como disse antes, o que importa é ter nas mãos uma boa história.
TA: O filme recebeu sete indicações ao prêmo Goya. O quanto é importante receber prêmios?
AW: Prêmio é o reconhecimento do seu trabalho, deixa a gente feliz. Mas um filme quando fica pronto é como um filho de 18 anos: ele vai sair de casa e não me pertece mais. O filme quando vai para um festival deixa de ser o meu filme para ser mais um filme. O teatro é uma obra aberta, você pode mudar, o cinema não. Depois que a primeira cópia saiu, não tem mais nada para ser feito.
TA: Em todo o processo para fazer um filme, desde a escolha das locações até a edição, o que mais atrai você?
AW: Filmar é legal, mas gosto mesmo da montagem e da mixagem. É quando tudo começa a fazer sentido.
TA: Que lugar no Brasil você considera cinematográfico? E no mundo?
AW: Fernando de Noronha. É o paraíso dentro do Brasil, já fiz vários comerciais lá, adoro. Estive no ano passado no interior da Escócia e achei lindo, tem uma luz maravilhosa, é cenário de filme mesmo. Mas meu sonho é conhecer a Península Kamchatka, na Rússia. Tenho loucura para ir lá. É longe de tudo, ermo, fascinante.
TA: Você tem planos de outros projetos internacionais?
AW: Por enquanto não, tenho um projeto no Brasil mesmo mas sou superticioso e não vou poder te contar (risos).

 

O entrevistado:
Nome: Andrew “Andrucha” Waddington
Nascimento: Rio de Janeiro, 1970
Filmografia: Lope (2011); Maria Bethania – Pedrinha de Aruanda (2007); Retrato Celular (2007); Casa de Areia (2005); Viva São João! (2002); Outros (Doces) Bárbaros (2002); Os Paralamas do Sucesso – Longo Caminho (2002); Eu Tu Eles (2000); Gêmeas (1999) e Os Paralamas em Close Up (1998).
Destino preferido: Fernando de Noronha, mas seu sonho é conhecer a Península Kamchatka, na Rússia.

Da Espanha para o mundo
Lope se passa no século XVI, após a guerra, quando Lope de Vega, ainda um desconhecido, chega a Madri. É na capital cultural em ebulição que ele vai descobrir o teatro e o amor.  Apresentado fora de concurso no Festival de Cinema de Veneza em 2010, o filme alcançou o público de 100 mil pessoas em apenas três dias de exibição na Espanha. Andrucha Waddington é o segundo diretor brasileiro na história a alcançar o Top 3 nas bilheterias espanholas.

No Brasil, o filme foi exibido pela primeira vez em outubro do ano passado, durante o 12° Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro. A estreia em circuito acontece em 4 de março. Lope será distribuído pela Warner Bros. Pictures, que também coproduz em parceria com Conspiração Filmes, El Toro Pictures, Ikiru Films, Antena 3 Films, Telefónica e Moonshot Pictures

 

*publicado na revista Travel Ace, março 2011

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