Janaina Pereira

julho 11, 2011

Luis Fernando Veríssimo

Filed under: Cultura,Entrevistas — janapereira @ 10:40 pm

Ele é um dos escritores mais populares do Brasil, dono de um humor peculiar que agrada aos leitores de todas as idades. Com mais de 60 títulos publicados, Luís Fernando Veríssimo é um apaixonado pelas letras tanto quanto adora o futebol e a música.

Por Janaina Pereira

O sobrenome de peso nunca foi um obstáculo para ele se tornar um escritor de linguagem própria. Filho de Érico Veríssimo, um dos maiores escritores brasileiros, Luis Fernando Veríssimo publicou seu primeiro livro aos 37 anos, e desde então não parou mais. Com o passar dos anos, seus livros caíram nas graças dos leitores e se tornaram referência quando o assunto é a sátira do cotidiano.

Não demorou muito para Veríssimo ganhar o teatro, o cinema e a televisão. Suas obras passaram a ser adaptadas com frequência, e sua popularidade ficou ainda maior. Embora seja mais conhecido por suas crônicas e textos de humor, também é cartunista e tradutor, além de roteirista de televisão, autor de teatro e romancista. Já foi publicitário e copy desk de jornal. Hoje é considerado um dos mais importantes escritores do País.

Nascido em Porto Alegre, Veríssimo viveu parte de sua infância e adolescência nos Estados Unidos com a família, em função de compromissos profissionais assumidos por seu pai, que era professor na Universidade de Berkeley e diretor cultural da União Pan-americana em Washington. Voltou ao Brasil em 1956, fixando residência em Porto Alegre, mas morou no Rio de Janeiro de 1962 a 1966, retornando à cidade natal em 1967, onde reside até hoje.

Luis Fernando Veríssimo escreve colunas semanais em alguns dos principais jornais do País, mas nem só de livros e textos vive o escritor: ele também é músico, e já tocou saxofone em alguns conjuntos. A paixão pelo instrumento começou quando ainda morava em Washington e descobriu o jazz. Sua outra grande paixão é o futebol, mas precisamente o Internacional, e já fez a cobertura de diversas Copas do Mundo. Nesta entrevista, ele fala sobre os assuntos que mais lhe agradam: livros, música e bola.

Travel Ace – O senhor foi tradutor, redator publicitário e revisor de textos antes de ser escritor. Como foi esse período da sua vida? Ser filho de um grande escritor influenciou na sua decisão em escrever?
Luis Fernando Veríssimo – Foi um bom período do ponto de vista pessoal. Casamento, primeira filha, etc. Do ponto de vista profissional foi um tempo de incertezas, que só acabaram quando me defini como jornalista e publicitário. Um pouco tarde, já com 30 anos. Eu não tinha nenhuma intenção de ser escritor. Se o fato de ser filho de um escritor famoso me inibiu e retardou a definição, não sei. Conscientemente, não.

TA – Quais as diferenças e semelhanças no seu processo de criação como cronista e como romancista?
LFV – Eu sempre comparo fazer crônica ou romance a comandar um veleiro ou um transatlântico. Nos dois casos você navega, mas num caso é passeio e no outro é viagem, com passageiros. Mas o processo é o mesmo, uma palavra depois da outra.

TA – O quanto das suas experiências pessoais – o que viu, ouviu ou vivenciou – o senhor usa em seus livros?
LFV – A gente sempre escreve sobre o que viu e viveu, mas também aproveita o que leu e a experiência dos outros. Mas também é possível apelar para a pura invenção, que não tem nada a ver com o vivido.

TA – O seu primeiro livro foi publicado em 1973. De lá para cá, o que mudou na literatura brasileira? Qual é o melhor escritor brasileiro hoje?
LFV – A mudança mais evidente é técnica, a prevalência hoje do computador e, em alguns casos, da sua linguagem própria. Eu estou bastante desatualizado em matéria de literatura brasileira. Gostava muito do Scliar, gosto do Rubem Fonseca, do Tabajara Ruas, do Torero. O melhor deles talvez seja o Milton Hatoum.

TA – Como é ser escritor em um país com um número grande de analfabetos, e onde os brasileiros alfabetizados leem pouco?
LFV – Continua havendo pouca gente que pode viver só de literatura no Brasil, como no tempo do Jorge Amado e do meu pai. Apesar dos meus livros venderem acima da média, eu não poderia viver só deles. Mas cada vez aparecem mais editoras e aos poucos se constrói um mercado editorial no país, apesar de tudo. Quanto aos que poderiam comprar livros e não compram, sempre lembro a frase do Mario Quintana: o pior analfabeto é o que sabe ler mas não lê.

TA – Como um dos escritores mais populares do Brasil, e criador de Ed Mort e O Analista de Bagé, personagens bastante famosos, ver sua obra retratada no cinema, no teatro e na TV lhe agrada?
LFV – Eu encaro a adaptação de um texto meu como o trabalho de outro e a julgo como tal, e não em relação a sua fidelidade ou não ao original. Gostei muito da adaptação das “Comédias da vida privada” na TV, uma feliz combinação dos talentos de gente como Guel Arraes e Jorge Furtado com o elenco de jovens comediantes da Globo.

TA – O senhor também é músico. Qual a importância da música em sua vida?
LFV – Sempre gostei muito de música e aprendi a tocar o saxofone na adolescência para poder brincar de músico, que de certa forma é o que faço até hoje. Se pudesse escolher entre a escrita e a música como atividade principal eu escolheria a música. Mas, infelizmente, não dá mais para fazer essa escolha.

TA – Como um apreciador de futebol, e já tendo feito a cobertura de várias Copas do Mundo, o que espera da Copa de 2014, no Brasil?
LFV – Os problemas vão ser muitos mas quem gosta de futebol prefere ver o lado bom da Copa, que é justamente a oportunidade de ver os melhores jogadores do mundo em ação. E, no caso de 2014, aqui, no quintal.

TA – O senhor, que já morou fora do Brasil, gosta de viajar? Em sua bagagem, costuma levar livros? Como é o leitor Luis Fernando Veríssimo, o que gosta de ler? Está lendo algo atualmente?
LFV – Em viagem leio os jornais locais, quando conheço a língua. Tenho lido pouca ficção, infelizmente, mais história e ensaios. Mas no momento leio o último do John Le Carre, “Our kind of spy”.

TA – Qual foi sua viagem inesquecível, no Brasil e fora do Brasil? E que lugares (dentro e fora do Brasil) gostaria de conhecer?
LFV – Inesquecível foi a primeira vez na Europa, acompanhando meus pais, em 1959. No Brasil preciso conhecer a região das Missões que, incrivelmente, ainda não conheço. Fora do Brasil, São Petersburgo.

TA – Seu último livro, Os Espiões, foi seu primeiro romance policial. Gostou de sua estreia no gênero? Pretende fazer outros livros com esta narrativa?
LFV – Na verdade, com exceção do “A décima-segunda noite” todos os meus romances foram, de uma forma ou de outra, policiais. Não estou fazendo nada no gênero, no momento.

TA – Com uma carreira de tanto sucesso, já existem planos para um próximo livro?
LFV – Deve sair outro livro de crônicas ainda este ano. Não sei quando, exatamente.

O entrevistado
Nome: Luis Fernando Veríssimo
Nascimento: 26/09/1936, em Porto Alegre (RS)
Personagens que criou: Ed Mort; Velhinha de Taubaté; Analista de Bagé; As Cobras; Família Brasil; Dorinha (Verissimo)
Crônicas e contos publicados: O Popular; A Grande Mulher Nua; Amor Brasileiro; O Rei do Rock; Ed Mort e Outras Histórias; Sexo na Cabeça; O Analista de Bagé ; A Mesa Voadora; Outras do Analista de Bagé ; A Velhinha de Taubaté; A Mulher do Silva ; A Mãe de Freud; O Marido do Doutor Pompeu; Zoeira; Noites do Bogart; Orgias; Pai Não Entende Nada; Peças Íntimas; O Santinho; O Suicida e o Computador; Comédias da Vida Pública; A Versão dos Afogados – Novas Comédias da Vida Pública; A Mancha.
Crônicas e contos (antologias e reedições): O Gigolô das Palavras; Comédias da Vida Privada; Novas Comédias da Vida Privada; Ed Mort, Todas as Histórias; Aquele Estranho Dia que Nunca Chega; A Eterna Privação do Zagueiro Absoluto ; Histórias Brasileiras de Verão; As Noivas do Grajaú; Todas as Comédias; Festa de Criança ; Comédias para se Ler na Escola; As Mentiras que os Homens Contam ; Todas as Histórias do Analista de Bagé ; Banquete Com os Deuses ; O Nariz e Outras Crônicas; O Melhor das Comédias da Vida Privada ; Mais comédias para ler na escola.
Novelas e romances: Pega pra Kapput ; O Jardim do Diabo ; Gula – O Clube dos Anjos ; Borges e os Orangotangos Eternos ; O Opositor ; A Décima Segunda Noite; Os Espiões.
Cartuns e quadrinhos: As Cobras; As Cobras e Outros Bichos; As Cobras do Verissimo; O Analista de Bagé em Quadrinhos; Aventuras da Família Brasil ; Ed Mort em Procurando o Silva; As Cobras, vols I, II e III; Ed Mort em Disneyworld Blues ; Ed Mort em Com a Mão no Milhão ; Ed Mort em Conexão Nazista ; Ed Mort em O Sequestro do Zagueiro Central ; A Família Brasil ; As Cobras em Se Deus existe que eu seja atingido por um raio; Pof; Aventuras da Família Brasil.
Outros: O Arteiro e o Tempo (infantil); Poesia Numa Hora Dessas?! (poemas); Internacional, Autobiografia de uma Paixão.

Destino Inesquecível: Europa, mas quer conhecer São Petersburgo.

*publicado na revista Travel Ace, junho/2011

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