Janaina Pereira

outubro 25, 2011

Em versos, prosas e dança

Filed under: Cultura — janapereira @ 9:51 pm

Espetáculos em homenagem a grandes nomes da MPB, trilhas sonoras marcantes, coreografias inesquecíveis: o Ballet Stagium chega aos 40 anos sem perder o ritmo.

Por Janaina Pereira

Outubro de 1971. Foi neste período que o nosso Quartier ganhava uma companhia de balé que contou com o apoio e influência da classe teatral local e ficou conhecida nacionalmente por seu projeto de engajamento político. Sob a direção dos bailarinos Marika Gidali e Décio Otero, o  Ballet Stagium foi fundado em plena ditadura militar, uma época de censura, repressões e violência.

O mundo das artes vivia um momento de limitações, e o Stagium surgia como uma voz na multidão. Para período conturbado da vida social e política brasileira, em que expressar qualquer opinião era um risco, a companhia se destacou por acreditar que podia
fazer a diferença nos palcos. O repertório, em parceria com Ademar Guerra, enfocava temas como o racismo, violência, opressões e genocídios, dançando textos proibidos pela censura, como Navalha na carne, de Plínio Marcos, sob o título Quebras do mundaréu (1975). Era uma grande ousadia para a época.

Ousadia, aliás, sempre foi uma característica do Stagium. A companhia foi a primeira a utilizar a  Música Popular Brasileira na trilha sonora, com espetáculos que reverenciam nossos artistas. Também se destaca por nunca ficar restrito ao palcos de teatros para suas apresentações. Pátios de escolas públicas das periferias dos grandes centros, favelas, igrejas, praias, hospitais, estações de metrô ou presídios: o Ballet Stagium vai aonde o povo está. E mais: não se limitou ao confortável eixo Rio de Janeiro-São Paulo para
suas apresentações, optando por fazer inúmeras viagens por todo o Brasil. Do Oiapoque ao Chuí, o Stagium sempre incorporou em seus espetáculos as linguagens dos locais por onde passava, com coreografias adaptáveis a qualquer cenário.

Ao completar dez anos, em 1981, o projeto “Escola Stagium” foi criado, dando oportunidade para milhares de crianças e adolescentes terem aulas de Ballet Clássico e Jazz. Desde então, forma bailarinos e plateias, estimulando o gosto dos brasileiros pela dança. O
bailarino e coreógrafo Edgard Duprat, um dos nomes mais importantes da história da companhia, revela em uma única frase seu sentimento pelo Stagium.

“Todos os trabalhos que fiz no Ballet Stagium foram marcantes, dentro de um contexto atualíssimo.”

Em outubro de 2011, quando completar 40 anos, o Ballet Stagium estará atingindo o auge de sua boa forma, repleto de histórias, coreografias e espetáculos para contar. Ainda hoje é dirigido por Marika Gidali e Décio Otero. Ela nasceu em Budapeste, na Hungria, e iniciou seus estudos de dança em São Paulo, na Escola de Carmen Brandão. Ele nasceu em Ubá, Minas Gerais, e começou a dançar com
Carlos Leite, no Ballet de Minas Gerais. Quis o destino, ou melhor, a dança, que os dois se unissem em torno de um sonho comum, um sonho chamado Ballet Stagium, que há quatro décadas faz parte da história da dança brasileira.

Genuinamente nacional

Um dos espetáculos mais populares do Stagium, Mané Gostoso foi apresentado na temporada de 2010 e é resultado da união entre as raízes brasileiras interpretadas pela dança com os pujantes acordes do consagrado repertório do Quinteto Violado, marcado pelo bom-humor, pela grandeza poética e, ao mesmo tempo, pela simplicidade.

A obra homenageia um dos ícones de nosso país, o artista pernambucano Luiz Gonzaga, ao realizar uma leitura moderna da cultura popular do Nordeste. O título Mané Gostoso é uma alusão ao boneco feito em madeira – brinquedo infantil facilmente encontrado nas feiras nordestinas –, e que tem pernas e braços movimentados por meio de cordões. Um dos maiores sucesso de público e crítica do Stagium, mostra a identificação da companhia com a cultura brasileira.

Para Marika Gidali, que fez a direção teatral de Mané Gostoso e, ao lado de Décio Otero, criou mais de 80 coreografias no decorrer desses 40 anos do Stagium, é difícil escolher um espetáculo que seja mais marcantes ao longo de todo esse tempo.

“Temos nos apresentado em Teatros Municipais do Brasil inteiro, além do Teatro Sérgio Cardoso e São Pedro, Teatros do SESC de São Paulo e Interior, Teatros do SESI, e também no exterior. Tudo isso tem sua importância”, afirma.

Marika credita o sucesso das marcantes trilhas sonoras dos espetáculos à colagem musical realizada por Otero, destacando as trilhas que
usaram músicas de Milton Nascimento , Egberto Gismonti, Aylton Escobar e Chico Buarque – este último ganhou uma bela homenagem da companhia com Stagium dança Chico Buarque,  que ficou em cartaz entre 2005 e 2006. Atualmente, o balé reverencia Adoniran Barbosa em Ballet Stagium em Adoniran*.

Para fazer da dança um meio de inclusão social, o Stagium conta com o Projeto Joaninha. Criado em 2000 e dirigido por Marika e Otero, o Joaninha oferece aulas de dança para crianças a partir dos sete anos. Desde 2005, a formação inicial (infantil) é realizada
em parceria com a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Seads) do Governo de São Paulo. Aqueles que se destacam recebem bolsa e podem dar continuidade à formação fazendo aulas na Companhia.

Marika ressalta que muitos bailarinos da companhia começaram no Projeto Joaninha, como Eduardo Maschetti. “Ele começou com 13 anos no Projeto Joaninha e dançou várias coreografias nas escolas públicas e nos teatros de São Paulo. Ingressou como estagiário na Companhia e hoje integra a Companhia Profissional do Stagium.”

A bailarina também destaca Márcia Freire, que começou no Projeto Dançar para não Dançar, ingressou no Projeto Joaninha aonde se apresentou com várias coreografias  nas escolas públicas e nos palcos  de vários teatros de São Paulo, estreou como estagiária na Companhia do Ballet Stagium e logo depois ingressou na Companhia.

“Todo esse processo deu a Márcia a oportunidade de viajar para Alemanha, aonde permaneceu um ano. Ela voltou para o Stagium em 2010”, revela.

Marika Gidali resume, com simplicidade, a importância da companhia para ela e para os amantes da dança.

“A minha vida inteira é voltada para o Ballet Stagium e é um desafio diário entre sucessos e dificuldades. Estamos dentro de um processo de vida e espero continuar vencendo cada dia”, finaliza.

Números: O Stagium realizou 3.359 espetáculos entre 1971 e 2009, assistido por 1.851.692 pessoas.

Prêmios: Premiados APCA 2009 DANÇA – Percurso em Dança
Ballet Stagium, por haver modificado a história da dança no Brasil

Projetos: O Stagium assinou contrato de 22 espetáculos de maio a novembro de 2011 nos CATs (Centro de Atendimento ao Trabalhador) do Sesi.

 

Ballet Stagium comemora centenário de Adoniran
Barbosa

Em um projeto
realizado com apoio do Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura e Programa
de Ação Cultural de 2011, o Stagium está apresentando o espetáculo Ballet Stagium em Adoniran, em comemoração ao
centenário do artista, um dos ícones da música brasileira, que em suas
composições retrata o cotidiano da população urbana de São Paulo e as mudanças
causadas na cidade pelo progresso.

Com
direção teatral de Marika Gidali, coreografia de Décio Otero, figurinos de
Marcos Tadeu e direção musical de Paulo Herculano, o espetáculo faz uma viagem
musical com as composições mais famosas daquele que é conhecido como o ‘pai do
samba paulista’. Estão na trilha sonora: Saudosa
Maloca, Bom Dia Tristeza, Tiro ao Álvaro, As Mariposa, Mensagem, Viaduto Santa
Efigênia, Iracema e a clássica Trem das Onze.

Próximas
apresentações: 24 e 25 de setembro no Theatro São Pedro (São Paulo).

Rua Barra Funda, 171 –
telefone: (11) 3667-0499

Itaú Cultural faz homenagem aos 40
anos do Stagium

O Ballet Stagium será homenageado dentro do projeto Ocupação, realizado pelo
Itaú Cultural desde 2009. No andar térreo do instituto o público poderá
conferir fotos, vídeos e uma programação paralela que faz parte da Ocupação Ballet Stagium.

Esta será a décima primeira exposição da série de “ocupações” promovida pelo
Itaú Cultural– já foram homenageados representantes das artes visuais (Nelson
Leirner, Abraham Palatnik e Cildo Meireles), do teatro (Zé Celso e Flávio
Império), da literatura (Paulo Leminski e Haroldo de Campos), da música (Chico
Science), do cinema (Rogério Sganzerla) e da arte cibernética (Regina
Silveira).

A exposição, que ficará em cartaz cerca de um mês e meio – até o fechamento
desta edição ainda não estava definida a data –, fará referência aos 40 anos do
Ballet Stagium e, como as demais, reafirma o compromisso do Itaú Cultural com a
preservação do patrimônio cultural e artístico do país. Dessa exposição
resultará uma publicação sobre a trajetória do Stagium.

Av. Paulista, 149  – telefone: (11) 2168-1777

Ballet Stagium no nosso Quartier: Rua Augusta
2985, 2º andar – Telefone 55-11- 30850151

*publicado na revista Quartier/outubro 2011

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: