Janaina Pereira

outubro 17, 2012

Gôndola na contramão

Filed under: Cinema,Cultura,Internacional — janapereira @ 10:40 pm

Primeiro festival do diretor Alberto Barbera tem menos celebridades, um menor número de filmes concorrentes e homenagem a Spike Lee

Por Janaina Pereira, de Veneza

 
O festival de cinema mais antigo do mundo chega à sua 69ª edição com algumas mudanças importantes em seu formato. A Mostra Internacional de Arte Cinematográfica, popularmente chamada de Festival de Cinema de Veneza, realizada de 29 de agosto a 8 de setembro, teve um novo diretor. Alberto Barbera assumiu o cargo em dezembro de 2011, em substituição a Marco Muller, que dirigiu o evento por oito anos.
A mudança trouxe um novo olhar para Veneza. Barbera alterou a quantidade de filmes concorrentes ao Leão de Ouro — o prêmio máximo — de 22 para 18. O menor número, segundo ele, é para dar maior qualidade ao Festival.
— Festival de Cinema não é apenas desfile de estrelas no tapete vermelho — declarou Barbera ao anunciar a mudança.

Essa modificação tornou a competição mais enxuta, o que beneficiou a maratona cinematográfica do público e da imprensa. Porém, a ausência de celebridades foi sentida e ficou visível na aparente diminuição tanto de espectadores nas sessões quanto de jornalistas na cobertura.
A seleção de 2012 incluiu diretores consagrados como o francês Oliver Assaysas (com Apres Mai), o japonês Takeshi Kitano (com Outrage Beyond) e o americano Brian de Palma (com Passion). Dois dos filmes mais aguardados do ano — e cotados para o Oscar — passaram por Veneza: The Master, de Paul Thomaz Anderson, e To the Wonder, de Terrence Malick. O primeiro, inclusive, rendeu ao protagonista Joaquin Phoenix o título de ‘pior momento do festival’: ovacionado por sua atuação no longa, o ator mostrou-se desinteressado e entediado na entrevista coletiva do filme e chegou a sair da sala, causando revolta entre os jornalistas.

Apesar de diminuir a quantidade de filmes da mostra competitiva, Veneza manteve a tradição de indicar três longas italianos ao Leão de Ouro. Os selecionados dessa vez foram È stato Il figlio, de Daniele Cipri; Bella Adormentata, de Marco Bellochio; e Un giorno speciale, de Francesca Comencini.

A mostra ainda homenageou o cineasta norte-americano Spike Lee com o prêmio Jaeger-Le Coultre Glory to the Filmmaker, concedido a personalidades que tenham contribuído com o cinema contemporâneo. No ano passado, o prêmio foi entregue a Al Pacino. Spike Lee ainda lançou na mostra o documentário Bad 25 sobre os 25 anos do disco Bad, de Michael Jackson.

A presença do diretor foi um dos momentos mais concorridos. Apesar da boa seleção de filmes, Veneza pecou por não trazer nomes de peso para o tapete vermelho. Ainda que estrelas como Winona Ryder, Zac Efron, Philip Seymour Hoffman, Kate Hudson e Robert Redford tenham desfilado pelo Lido — onde o festival é realizado — para quem já teve Brad Pitt, George Clooney, Kate Winslet, Madonna e Catherine Deneuve, para muitos, parecia faltar alguma coisa.
— Por mais que Barbera diga que o festival não precisa de celebridades, são elas que trazem a mídia. E isso Veneza não teve este ano. Faltaram artistas que atraíssem a mídia, que fizessem com que as pessoas ficarem esperando por eles. Só ouve comoção com a passagem do Zac Efron, ídolo juvenil. Daí, já percebemos o nível do festival — analisa a crítica de cinema Paola Ricciardi.

Contracampo Italiano chega ao fim
A maior controvérsia do diretor Alberto Barbera foi o fim da mostra Contracampo Italiano, direcionada exclusivamente a produções do país anfitrião. A decisão causou mal-estar na relação de Barbera com a imprensa italiana.
— Foi contraditório. Ele chegou dizendo que ia valorizar o festival e começa extinguindo a seleção de filmes exclusivamente do país! Não faz sentido — reclama o produtor italiano Giancarlo Nardelli.

Nardelli acredita que essa atitude foi ruim para a relação de Barbera com a imprensa local, que, desde o começo, vê com receios o novo diretor do Festival de Veneza.
— No mínimo foi antimarketing pessoal. Ele poderia até acabar com o Contracampo, aos poucos, ou no próximo ano… Mas assim, logo no primeiro ano, foi uma atitude ruim — reclama.
Com a redução de filmes da mostra competitiva e o fim da Contracampo Italiano, Veneza teve uma redução de cerca de 30% do total de filmes exibidos. O festival já chegou a ter mais de 400 filmes apresentados em 11 dias.

A concorrência com Toronto continua
Não é de hoje que Veneza perde terreno para o Festival Internacional de Cinema de Toronto. A cidade do Canadá tem atraído os principais filmes que querem fazer seus lançamentos nesta época do ano.

A mostra de Toronto — que não distribui prêmios como Veneza — tem como foco a venda de filmes para o mercado internacional. Em 2011, 360, de Fernando Meirelles, foi lançado mundialmente lá. O filme até esteve cotado para ir a Veneza, mas a distribuidora optou por colocá-lo em um festival voltado diretamente para o mercado.
Para enfrentar o Festival de Toronto, Barbera lançou um mercado de filmes em Veneza. O evento, chamado Venice Film Market, movimentou o Hotel Excelsior, no Lido, onde foi realizado, mas até o fechamento desta matéria não tínhamos os números dos negócios realizados.

Para Andrew Smith, representante de uma distribuidora americana que foi a Veneza para participar do evento, é difícil concorrer com Toronto.
— Toronto já tem uma boa tradição na venda de filmes. Vim a Veneza para ver como seria, mas, assim como eu, outros distribuidores irão direto daqui para o Canadá e os negócios serão fechados lá. Essa é a tendência — explicou.

O evento começa em Toronto quando Veneza já está na reta final. Isso faz com que o festival italiano perca não só em termos comerciais, mas também em divulgação: muitos jornalistas deixam a cobertura do festival na Itália antes do final para acompanhar os lançamentos de Toronto.

Polêmicas sobre o novo Palazzo del Cinema
Além dos desafios mercadológicos, Alberto Barbera enfrenta problemas com a estrutura física do Festival de Veneza. Em 2005, a Biennale di Venezia —organizadora do festival — assinou um contrato para a construção do novo Palazzo del Cinema. A previsão de inauguração era para 2011, para comemorar os 150 anos da Unificação italiana.
De acordo com a imprensa local, foram gastos mais de 37 milhões de euros para abrir o buraco onde deveria ser construído o novo Palazzo. Porém, foi descoberto amianto no solo, e como o material é altamente tóxico, a construção foi suspensa. Para retirar o amianto, a Biennale precisará desembolsar mais dinheiro, e com a crise italiana, isso ficou inviável. Resultado: Barbera resolveu literalmente tapar o buraco e construiu uma praça com bar e lounge.

Para a construção e a manutenção do novo espaço, inaugurado no primeiro dia, estima-se um gasto de 20 mil euros mensais. Assim que assumiu a direção do Festival de Veneza, Alberto Barbera afirmou que “para enfrentar a competição crescente, a Biennale está comprometida a promover a reconstrução das áreas já em construção nos próximos quatro anos”.
Suas palavras, porém, não tiveram muito crédito na Itália.
— Acho difícil que o Palazzo Del Cinema seja construído. Essa história é antiga e até agora nada — comentou o arquiteto Francesco Albetini durante o Festival de Veneza, enquanto aguardava, na nova área de lazer, o início de uma sessão da mostra.

O diretor, no entanto, já tomou algumas providências. Novos equipamentos de projeção para cópias digitais e em película foram instalados para o Festival deste ano. E ele acredita que as reformas das salas Grande, Darsena e Volpi vai acontecer nos próximos três anos.
A área de imprensa, porém, continua problemática. Faltam computadores e tomadas para os notebooks. Além disso, a conexão wifi continua ruim e não há espaço para se trabalhar. A maioria dos jornalistas acaba se ajeitando pelo chão da sala de imprensa e muitos acompanham as coletivas em pé.

O Brasil em Veneza
Há alguns anos o cinema brasileiro não concorre ao Leão de Ouro em Veneza. O último candidato ao cobiçado prêmio veneziano foi O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles, em 2005. Desde então, o país não esteve presente na mostra competitiva.

Em 2010, o Brasil participou com alguma força. O filme era Lope, de Andrucha Waddington, uma co-produção Brasil-Espanha apresentado fora de concurso. Exibido no penúltimo dia do Festival para a imprensa, foi um fiasco: a coletiva com o diretor, realizada no último dia, tinha menos de dez jornalistas.
Este ano, o único representante brasileiro foi o curta-metragem O Afinador, de Fernando Camargo e Matheus Parizi, que fez parte da mostra Orizzonti, ao lado de outros 13 curta-metragens. O enredo conta a história de um jovem afinador de pianos que sonha ser concertista.

Embora nos últimos anos, o cinema brasileiro tenha preferido participar dos festivais de Berlim e Cannes — os outros dois que formam com a mostra italiana a trindade dos festivais de cinema — Veneza já foi palco de bons momentos made in Brazil. Filmes como Eles Não Usam Black Tie, de Leon Hirszman, em 1981, e Abril Despedaçado, de Walter Salles, em 2001, já concorreram ao Leão de Ouro.

Mas o festival anda mesmo com menos participantes latinos nos últimos tempos. A última vez em que a América Latina concorreu ao Leão foi em 2010, com o chileno Post Mortem, de Pablo Larraín, que chegou a ser cotado para prêmios, embora tenha saído de Veneza sem nada.

Em compensação, o cinema oriental vem crescendo na mostra, com dois a quatro representantes por ano na mostra competitiva. Com Barbera no comando, parece que essa tendência vai continuar.

Saber os rumos que o Festival de Veneza vai tomar sob o comando de novo diretor é difícil dizer. Mas o seu primeiro ano não agradou à grande maioria, como analisa o crítico de cinema Pietro Marcandoni.
— Ele tentou fazer uma seleção de qualidade e conseguiu. Mas é preciso rever o conceito. Tem que valorizar o que é nosso, dar oportunidade aos outros países, trazer artistas que rendam notícias. Não é um festival só para ele, é para o mundo — conclui.

Publicada na edição de setembro de 2012 da revista Comunità Italiana.

http://comunitaitaliana.com/site/index.php?option=com_content&task=view&id=17051&Itemid=130

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