Janaina Pereira

dezembro 17, 2012

Crise, luz e ação

Filed under: Cinema,Cultura,Internacional — janapereira @ 10:23 pm
Em plena crise financeira, cineastas italianos, entre veteranos e novatos, conquistam o público mundo afora em um movimento de renovação batizado de Risorgimento

Por Janaína Pereira – Veneza

A crise econômica que a Itália enfrenta chegou ao cinema. Mas, com criatividade e talento, os cineastas italianos têm driblado este período financeiramente ruim, com a realização de vários filmes que estão alcançando sucesso no mundo inteiro. Este ano, três produções se destacaram nos principais festivais de cinema. César Deve Morrer (Cesare Deve Morrire), dos irmãos Taviani, ganhou o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim; Reality, de Matteo Garrone, levou o Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes; e A Bela que Dorme (Bella Addormentata), de Marco Bellocchio, foi o principal filme italiano no Festival de Veneza, que premiou È stato Il figlio, de Daniele Cipri, em duas categorias (melhor fotografia e ator revelação).
Na terra de Fellini, Antonioni, Visconti, Pasolini, Rossellini e Monicelli — só para citar alguns dos maiores cineastas italianos que conquistaram o mundo — veteranos como Marco Bellocchio e os irmãos Taviani ainda têm espaço. Mas há também uma nova geração, na faixa dos 40 anos, que conquistam o público e a crítica e ganham aos poucos reconhecimento internacional. Essa nova safra do cinema italiano, conhecida como Risorgimento, tem como maiores destaques os diretores Matteo Garrone, Emanuele Crialese, Saverio Costanzo e Paolo Sorrentino.
Apesar da boa fase, a atual produção cinematográfica italiana ainda sofre críticas. Há aqueles que apontam uma grave crise criativa e produtiva, como o crítico Paolo Berroni.
— A Itália já foi, ao lado da França, o maior concorrente da hegemonia americana no cinema. Hoje não conseguimos fazer frente a eles porque nossos cineastas não apresentam nada de novo. Continuam apostando em histórias que não conquistam o público mundial e que são interessantes somente para os italianos — comenta.
Como em qualquer questão, há sempre o outro lado da história. O jornalista Pietro Ferrara discorda de Berroni, apontando a renovação do cinema italiano.
— Tem muita coisa nova sendo produzida e o cinema italiano resiste a qualquer tipo de influência externa, com produções de acordo com a nossa realidade.
O cineasta de animação Bruno Bozzetto ressalta que, com a crise, os italianos têm ido pouco ao cinema. Por isso, escolhem bem as histórias às quais vão assistir.
— É um momento em que a Itália produz uma ótima safra de humor, pois a maioria dos italianos vai ao cinema poucas vezes por ano e levam toda a família. Essas pessoas querem ver comédias para deixar a vida real um pouco mais leve, já que o dia a dia está muito pesado.
A crítica de cinema Maria Amatto opina que não existe novo ou antigo cinema italiano. Para ela, o que existe são novos e veteranos cineastas e, nesse duelo, “quem sai ganhando é o cinema, e a versatilidade que eles mostram diante das dificuldades é, no mínimo, admirável”, conclui.

Quem é quem no cinema italiano hoje

Matteo Garrone
Nasceu em Roma e despontou para o mundo em 2008, quando ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes com Gomorra, a história violenta de meninos recrutados pela Máfia em Nápoles. Este ano, voltou ao festival com Reality, apontado pelos críticos como uma mistura das comédias italianas do passado e dos filmes de Federico Fellini. A história gira em torno de Luciano (Aniello Arena), dono de uma peixaria, casado e pai de três filhos, que quer, a todo custo, participar da versão italiana do Big Brother.
Em entrevista à ComunitàItaliana durante o Festival de Veneza, onde foi jurado da competição oficial, Garrone comentou sobre essa nova fase do cinema italiano.
— Não acredito que os novos diretores italianos façam filmes para mudar nosso cinema. Acho que hoje temos uma linguagem universal, que alcança um grande número de pessoas. Por isso, estamos em evidência.
Garrone, que tem 44 anos, é apontado como o melhor cineasta italiano da nova safra e era a aposta certa para a indicação do país ao Oscar. Porém, perdeu a vaga para os veteranos irmãos Taviani.

Emanuele Crialese
Aos 47 anos, nasceu em Roma e já fez quatro filmes, todos com boa repercussão internacional. São eles Once We Were Strangers, Respiro, Novo Mundo e Terraferma. Este último ganhou o Grande Prêmio do Júri Festival de Veneza de 2011 e foi indicado como representante da Itália na disputa por uma indicação ao Oscar de produção em língua estrangeira este ano. Com foco nos problemas sociais italianos, Crialese mostrou em Terraferma a sua visão sobre os problemas da imigração na Itália. Na ocasião da apresentação do filme no Festival de Veneza, o diretor chegou a discutir com uma jornalista italiana, que o acusou de defender os imigrantes ilegais. O diretor, no entanto, defendeu o filme dizendo que se tratava de uma obra cinematográfica que retratava histórias reais.

Paolo Sorrentino
Estreou no cinema em 2001 e começou a se destacar em 2008 com a comédia política Il Divo, que ganhou o Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Em 2011, voltou ao Festival com Aqui é meu lugar, estrelado por Sean Penn. O filme é falado em inglês, mas foi produzido e escrito por italianos, com dinheiro da Itália, em parceria com irlandeses e franceses. Nasceu em Nápoles, tem 42 anos e está preparando um novo projeto: o filme La grande bellezza.

Paolo Virzi
Despontou na Itália em 1994 com seu primeiro filme, La Bella Vita. Porém, somente em 2010 com A Primeira Coisa Bela, foi reconhecido em outros países. O filme, representante do país no Oscar do ano passado e maior bilheteria italiana dos últimos tempos, é uma tragicomédia que conquistou o público e a crítica ao dar nova vida a esse gênero. Nasceu em Livorno e tem 48 anos.

Saverio Costanzo
Nasceu em Roma, tem 37 anos e teve a segunda maior bilheteria na Itália em 2010 com A solidão dos números primos, baseado no best-seller homônimo de Paolo Giordano. O filme foi seu quarto trabalho como diretor.
Em entrevista à Comunità, comentou as dificuldades para se filmar na Itália.
— Temos grandes produções, mas, como são financiadas por empresas, precisam ser comerciais. É difícil fazer algo que seja cinematográfico. Muitos filmes italianos que vemos no cinema, na verdade, poderiam passar apenas na TV porque não são cinema de verdade.

Daniele Luchetti
Nasceu em Roma, tem 52 anos e ganhou fama mundial em 2007 com Meu irmão é filho único. O cineasta disputou a Palma de Ouro em Cannes em 2010 com La nostra vita, que rendeu o prêmio de melhor ator a Elio Germano. Ele vive um operário obrigado a cuidar sozinho de três filhos após a morte de sua esposa. Seu próximo projeto, Storia mitologica della mia famiglia, deve chegar aos cinemas em 2013 e já é apontado como o principal filme italiano a concorrer em festivais mundias do ano que vem.

Roberto Benigni
O ator e diretor de 60 anos foi o grande nome do cinema italiano no final dos anos 1990, quando ganhou o Oscar de melhor ator e melhor filme estrangeiro com A Vida é Bela. Era o ressurgimento do cinema italiano para o mundo. De lá para cá, fez alguns filmes nos Estados Unidos, mas não retomou o sucesso. Nascido na Toscana, chegou a ficar sete anos longe das telas. Ressurgiu esse ano como ator, em Para Roma com Amor, de Woody Allen. Mesmo não sendo tão atuante no cinema hoje, ainda é muito popular na Itália.

Marco Bellochio
Aos 73 anos, nascido em Piacenza, é um dos mais importantes cineastas italianos e também um dos mais críticos à política do país. Fez seu primeiro filme, La Colpa e La Pena, aos 21 anos, e conquistou reconhecimento internacional em 1965 com o hoje clássico De Punhos Cerrados (I Pugni in Tasca), um filme que questionava a autoridade familiar. Ao longo dos anos, tem dirigido filmes que alcançam sucesso fora da Itália, mas sempre divide opinião dentro do país: talvez porque Bellocchio seja um dos cineastas mais contestadores e politizados do cinema italiano. Entre seus filmes de maior êxito, estão Bom Dia, Noite, Vencer e Irmã Jamais. Seu último trabalho, A Bela Que Dorme, aborda um caso de eutanásia que comoveu a Itália.
O filme era um dos favoritos ao Festival de Veneza deste ano, mas não foi premiado. O resultado deixou o diretor frustrado. Ele declarou, após o Festival, que não voltará a concorrer.
— Para o Festival de Veneza, um filme que aborda um assunto italiano é muito pequeno para ganhar uma grande competição. Veneza não trata as obras nacionais apropriadamente — lamentou.

Daniele Cipri
O roteirista e diretor de fotografia surpreendeu este ano em Veneza com seu segundo filme como diretor, È Stato Il Fliglio, vencedor de dois prêmios no Festival. Colaborador de vários filmes de Marco Bellocchio, é uma das promessas da nova safra de diretores italianos. Nasceu em Palermo e tem 50 anos.

Nanni Moretti
Aos 58 anos, é um dos mais conceituados cineastas italianos. Foi presidente do júri do Festival de Cannes deste ano, local em que, em 1994, ganhou o prêmio de melhor direção com Caro Diário, o primeiro grande sucesso internacional, onde narra sua batalha pessoal contra o câncer. Nasceu em Brunico, começou a dirigir filmes em 1978 e sempre buscou o caminho da crítica social, com uma visão sarcástica dos problemas. Conhecido como o Woody Allen italiano, tem em sua cinebiografia outros dois grandes sucessos: O quarto do filho, vencedor da Palma de Ouro de melhor filme no Festival de Cannes 2001, e Habemus Papam, que participou da mostra competitiva de Cannes em 2011.

Giuseppe Tornatore
Começou a dirigir filmes em 1986. Em 1989, fez aquele que é, até hoje, um dos mais lembrados filmes italianos das últimas décadas: Cinema Paradiso. Sucesso de público e de crítica, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1989 e do Oscar de melhor filme estrangeiro em 1990, elevou Tornatore ao patamar de maior nome do cinema italiano no início dos anos 1990. Teve outros dois sucessos em sua carreira: Estamos todos bem (1990), estrelado por Marcelo Mastroiani, e Malena (2000), que transformou Monica Bellucci em símbolo sexual mundial. Mas nenhum deles causou a repercussão e a comoção de Cinema Paradiso. Nascido em Bagheria, tem 56 anos e está filmando cada vez menos. Seu último trabalho foi em 2009, com Baaria, que passou despercebido nos cinemas.

Irmãos Taviani
Vittorio e Paolo Taviani, respectivamente com 83 e 81 anos, têm, juntos, uma carreira de mais de 50 anos dedicados ao cinema. E caberá aos veteranos cineastas a missão de representar a Itália no Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013 com César Deve Morrer. Os cinco indicados serão conhecidos no início do próximo ano. Em Cannes, eles já ganharam dois prêmios: Palma de Ouro com Pai Patrão (1977) e o Grande Prêmio do Júri com A Noite de San Lorenzo (1982). Este ano, no Festival de Berlim, conquistaram o Urso de Ouro com César Deve Morrer, filme-documentário que é uma adaptação da obra Júlio César, de Shakespeare, interpretada por detentos da prisão de segurança máxima de Rebibbia.

Publicada na edição de novembro de 2012 da revista Comunità Italiana.

http://comunitaitaliana.com/site/index.php?option=com_content&task=view&id=17326&Itemid=130

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