Janaina Pereira

julho 4, 2015

Ney Matogrosso: “Acho o politicamente correto muito chato”

Filed under: Cinema,Cultura,Entrevistas — janapereira @ 10:27 pm
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Cantor é a estrela do documentário “Olho Nu”, de Joel Pizzini, que resgata momentos importantes de sua vida e obra

Por Janaina Pereira

Versátil. Essa poderia ser uma boa palavra para definir Ney Matogrosso, mas parece pouco diante de um dos artistas mais particulares da nossa música. Sua voz de contratenor, as declarações polêmicas e a fama de contestador são destaques do documentário Olho Nu, que estreia no dia 15 de maio.

Dirigido por Joel Pizzini e com produção do Canal Brasil, Olho Nu não segue uma linha tradicional de documentário e é focado em entrevistas, shows, videoclipes, gravações caseiras e programas que Ney participou ao longo de seus mais de 40 anos de carreira. Além de dar ênfase à vasta discografia do cantor – que também é ator, diretor e iluminador – o filme mostra suas raízes na cidade de Bela Vista, no Mato Grosso do Sul, e o começo no Secos e Molhados até se tornar um ícone da música brasileira.

Em entrevista exclusiva à GQ antes de embarcar para Portugal – onde ia cumprir uma agenda de shows e lançar o filme – Ney Matogrosso mostrou que o tempo passa mas suas opiniões continuam firmes: aos 72 anos, falou sobre sexo, drogas e música sem rodeios e sem pudores.

Como surgiu a ideia de fazer o documentário?
Sou muito amigo do Paulo Mendonça, do Canal Brasil, conheci ele bem antes de ser cantor. Como tudo que eu fazia para a televisão, de shows a entrevistas, eu pedia uma cópia, sem um propósito mesmo, simplesmente para guardar comigo, o Paulo um dia sugeriu fazermos um especial para a TV com este material. Eu achei a ideia boa, e quando ele analisou o material, me falou que eram mais de 300 horas de gravações. Fiquei surpreso, não imaginava que fosse tanta coisa! Aí, comecei a pensar em fazer algo para o cinema, e ele topou.

O filme não tem uma narrativa típica de documentário. Isso foi pensado desde o início?
Convidamos o Joel (Pizzini) para dirigir, e foi ele quem pensou neste formato diferente. A minha voz que você ouve no filme, por exemplo, em grande parte é a voz das gravações originais. Eu gravei pouca coisa.

Você participou ativamente da produção?
Ativamente, não… opiniei, mas não interferi na criação, nem na montagem. Eles me mostravam o material depois de um corte, eu dava uns palpites. Tinha coisa ali que eu não me lembrava, como o depoimento de meu pai … eu devo ter visto o material umas 20 vezes. Foram quatro anos realizando o filme.

ney matogrosso (Foto: divulgação)

Há um momento do documentário em que você vê uma entrevista sua e fala que não pensa mais daquela forma. Revendo esse material, teve outras situações em que você mudou o pensamento? O Ney Matogrosso de hoje pensa diferente?
Não mudei de opinião ao longo dos anos, e a única coisa que penso diferente é justamente esta entrevista que você citou. Eu disse em determinada época que para fazer sucesso era preciso estar na mídia, na televisão, e isso não é verdade. Eu mesmo não precisei disso, então como hoje penso diferente, tem essa cena do documentário em que comento minha mudança de pensamento. O restante nada mudou, continuo com as mesmas opiniões.

No filme você cita que foi um transgressor. Você sente falta de um pouco de transgressão no mundo de hoje? Está tudo politicamente correto demais?
Acho o politicamente correto muito chato! Outro dia encontrei o Gilberto Gil e falamos sobre isso. Chegamos à conclusão que hoje nada mais choca as pessoas. Eu, Gil, Gal, Caetano, Rita Lee, Raul Seixas, nós éramos escandalosos para o mundo conservador. Mas hoje tem veículos que escoam [as pessoas escandalosas]. Eu não vejo mais pessoas transgredindo. Quem é pego com drogas diz que aquela droga não pertence a ele, não assume seus atos. Viva o Lobão! [o cantor foi preso, nos anos 1980, por porte de drogas]. Não faço apologia às drogas, mas acho importante mostrar o caráter das pessoas. Gosto daqueles que assumem o que fazem. Vou fazer uma pergunta: você acha que no filme eu apareço muitas vezes nu?

Não. Acho que o filme mostra exatamente quem você é.
Pois é, mas tem gente que acha que tem muitas cenas em que apareço nu. Mas aquele sou eu! Posei nu quando não existiam fotos de homens nu. Quando eu era adolescente, entrava no mato com meus 11 cachorros e passava horas assim. Minha mãe dizia que, quando eu era bem pequeno, ela me vestia para dormir e, não sabe como, eu acordava sem roupa. Por isso minha nudez tem que estar no filme, não é gratuito, não é para chocar.

Você era tímido? Era por isso que ficava mais fácil usar um personagem para encarar o público?
Era muito tímido, mas depois que saí do Secos e Molhados comecei a tirar a maquiagem. Foi em meu segundo disco, Bandido, que comecei a mostrar mais meu rosto. Ali eu já tinha percebido que a excitação das pessoas comigo era só no palco, não acontecia nada fora.

Seus shows nesta época provocavam uma euforia muito grande nas pessoas, ao mesmo tempo que outras ficavam chocadas com suas performances. Como foi lidar com isso?
Tinham pais que não deixavam as crianças na sala na hora que eu aparecia na TV. As pessoas ficavam chocadas mesmo. Eu era um hippie, que vivia à margem da sociedade por não concordar com ela. Na primeira vez que dei entrevista eu nem sabia o que dizer. Aí pensei, ‘vou falar a verdade’. Quando me perguntaram sobre sexo, eu falei o que pensava. Eu não ia posar com namoradinhas. Eu até transava com mulheres, mas não era só isso. Só que eu falava sobre sexo e quando saía a entrevista o jornalista tinha escrito sobre amor. E eu não tinha falado de amor. Mudavam o que eu dizia. Não queria passar a ideia de uma coisa que eu não era, porque depois se descobrissem ia ser pior. Eu sempre falei o que pensava.

Mas nos anos 1980 você fez um show usando terno, sem a maquiagem e o figurino que todos estavam acostumados. Por quê?
Os jornais diziam que eu não era um cantor, e que as pessoas iam aos meus shows só para ver um homem rebolando no palco. Então eu pensei: ‘será que é isso mesmo?’. Foi aí que fiz o show Pescador de Pérolas, usando terno. Às vezes vinha alguém dizer que eu tinha que me requebrar no palco, e eu falava ‘não, gente, isso é outra coisa, é outro momento’. Eu queria provar para mim mesmo que eu era capaz.

No documentário você fala dos seus amigos que morreram de AIDS, e comenta que perdeu 13 amigos em dois anos. Como foi lidar com essas perdas?
Eu vivia igual aos meus amigos, era para estar contaminado. Ninguém usava camisinha, então a lógica é que eu tivesse morrido. Mas eu fui poupado. As pessoas morriam em um ano e, chegou um momento em que eu aceitei o que estava acontecendo e fiz isso para manter minha sanidade mental. Aceitei, mas com muita dor.

O Cazuza aparece em algumas cenas, e você canta várias músicas dele no documentário. Como foi rever esses momentos?
Muita gente está dizendo que o Cazuza não aparece muito no documentário, mas eu acho que não havia necessidade de mostrar muito ele, porque não era um filme sobre os meus amores. Gosto daquela cena em que ele fala ‘Ney, por que que a gente é assim?’. Fiquei feliz quando vi que o Joel tinha colocado esta cena, porque a gente falava isso e caia na gargalhada. O que sentimos pelas pessoas a morte não apaga. O amor é maior que o sexo e o desejo, e eu continuo amando. Percebi isso claramente quanto tomei o [Santo] Daime. Eu senti todos os meus amores, consegui acessá-los. Eu não vi nada, mas eu senti. Foi um trabalho espiritual, um processo envolvendo as pessoas que amei, e ali eu percebi que este sentimento não mudou.

Como você espera que as pessoas recebam o documentário?
Tem muita gente que não gosta de mim, mas o que posso dizer é que todos vão ver a pessoa que eu sou.

Nos anos 1970, em plena Ditadura, como era ser um transgressor?
Eu ignorava que existia Ditadura. Eles podiam me matar; sei que jogavam pessoas vivas na Restinga da Marambaia… me mandavam recados, diziam que eu pegava pesado demais. Mas eu não falava de política. Eu usava a minha libido para enfrentar.
Você sempre diz que o Ney maquiado, com figurino, que sobe ao palco, é um personagem. Como esse personagem foi criado?
Eu tinha 30 anos quando subi no palco com o Secos e Molhados, e não queria perder a minha identidade. Todo mundo dizia que o sucesso trazia coisas como não poder mais andar nas ruas, e eu não queria isso para mim. Então, inspirado no Teatro Kabuki [teatro japonês que usa maquiagem elaborada], pensei em fazer a pintura no rosto, em preto e branco, assim ninguém me reconhecia. No auge do Secos e Molhados eu passava na rua e as pessoas realmente não sabiam quem eu era.

Publicado na GQ Online em maio de 2014. Confira aqui.

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