Janaina Pereira

julho 4, 2015

“Tenho que achar algo cativante, que me motive”, diz Tony Ramos sobre a escolha de personagens

Filed under: Cinema,Cultura,Entrevistas — janapereira @ 10:18 pm
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Tony Ramos, protagonista de Getúlio, novo filme de João Jardim, completa 50 anos de carreira como um dos melhores atores brasileiros

Por Janaina Pereira

Tony Ramos é uma rara unanimidade – não importa se o assunto é TV, teatro ou cinema. Ele estreou na televisão na extinta Tupi, e está na Rede Globo há 38 anos. Foi na emissora carioca que se consolidou como galã e interpretou personagens memoráveis, como os gêmeos Quinzinho e João Victor, de Baila Comigo (1981) e o jagunço Riobaldo, da minissérie Grande Sertão: Veredas (1985).

No cinema, fez 30 filmes, entre eles os sucessos Se eu fosse você 1 e 2, ao lado de Glória Pires. No dia 1 de maio, Tony Ramos estreia mais um trabalho na telona – Getúlio, de João Jardim, em que vive o ex-presidente da República que se suicidou em 1954. Além da impressionante caracterização – que inclui uma roupa feita especialmente para ele parecer 30 quilos mais gordo – o longa mostra todo o talento do ator, que está completando 50 anos de carreira.

Querido pelo público e aclamado pelos colegas de profissão, Tony tem fama de ser uma pessoa discreta, generosa, bem-humorada e dedicada ao trabalho. Nesta entrevista exclusiva à GQ, dá para perceber que tudo que dizem sobre ele é a mais pura verdade – Tony Ramos esbanja profissionalismo e simpatia ao contar sobre seus personagens mais marcantes e como foi interpretar o contraditório Getúlio Vargas.
GQ – Como foi o convite para fazer Getúlio?
Tony Ramos – O convite veio com um telefonema do diretor João Jardim. Fiquei surpreso. Perguntei como ele pretendia mostrar Getúlio no filme, se ia falar da época de ditador… mas João disse que só ia mostrar os dias que antecederam o suicídio. Quando li o roteiro do George Moura fiquei encantado. Getúlio foi um homem contraditório, intenso, revelador. As pessoas falam dele como ditador, que foi isso e aquilo, mas ele também foi eleito democraticamente e voltou ao Governo pelos braços do povo.

GQ – Fazer um personagem tão contraditório é mais interessante?
Tony Ramos – Sem dúvida! Nenhum historiador diz se ele sabia ou não do atentado ao Carlos Lacerda, então não existe uma verdade absoluta sobre Getúlio. Além disso, naquela época as coisas não era filmadas como hoje, onde tudo está registrado. Nos depoimentos das pessoas que trabalharam com ele, e nas biografias em que é citado, aparece que ele era uma pessoa de imensos silêncios. E eu precisava encontrar os silêncios de Getúlio.

GQ – Um dos destaques do filme é a sua caracterização para viver Getúlio Vargas. Como era esse processo?
Tony Ramos – Levava cerca de duas horas e meia para me transformar em Getúlio. Trouxemos uma pessoa de Los Angeles, técnica de efeitos especiais, que já fez barrigas para vários atores em filmes famosos, e a gente fez aquilo que se chama de fat suit, que é uma roupa inteira de gordo. Ela me mediu em escala, e comparava com as fotos de Getúlio. A roupa foi feita sob medida e dá a impressão que engordei uns 30 quilos. Tinha também a caracterização da cabeça, dele careca e com fios brancos. Meu cabelo foi raspado com navalha, e depois com a tesoura a cada dez dias. Havia látex para fazer bolsas d’olhos.

GQ – O quanto isso ajudou na composição do personagem?
Tony Ramos – A caracterização física é muito importante. Ela dá uma ideia do que ele era. Estudei seus gestos, o jeito de falar. O importante para mim era encontrar o tempo real do personagem. Tem uma cena que gosto muito, da reunião do Ministério, em que as pessoas falavam e ele parecia não estar ali presente. Ele tinha isso de ficar pensando em outras coisas, olhando para o nada. Isso são coisas que eu tive de buscar.
GQ – Apesar da relação próxima com a filha Alzira, Getúlio parecia um homem muito solitário. Você acha que essa solidão está associada ao poder?
Tony Ramos –
Sim. Tem uma frase do Getúlio que mostra bem isso, ele diz para Alzira: “Minha filha, eu estou há tantos anos no poder, e nunca ninguém me procurou para pedir alguma coisa para o país. As pessoas me procuram para pedir algo para si mesmas ou para alguém.”

GQ – Essa relação com a Alzira é curiosa, pois entre os filhos do Getúlio, ela era a única mulher, e tinha uma importância muito grande no Governo dele. O que achou de ver uma mulher com tanto poder na política naquela época?
Tony Ramos
– É interessante sim, porque Alzira Vargas foi muito influente junto ao pai. Os diários de Alzira são importantes para entender o que se passou naquela época, ela percebia as conspirações. Ela também é uma das pessoas, ao lado de Tancredo Neves, que cita os imensos silêncios de Getúlio.

GQ – Estamos em ano de eleição, e o Getúlio ainda é um dos políticos mais controversos do Brasil. Que importância tem este filme para os dias de hoje?
Tony Ramos –
O poder pode encantar as pessoas. É importante que se reflita sobre isso. O filme ajuda a entender o que ele fez mas, claro, o que ele fez não é algo normal. Tem um momento do filme em que Getúlio fala de Getulinho, seu filho que morreu. Ele cita o dia em que o filho completaria 37 anos de idade. E este dia é o mesmo em que Getúlio se mata. Isso mostra toda a contradição do personagem.

GQ – Este é um papel marcante para comemorar seus 50 anos de carreira?
Tony Ramos – As coisas acontecem na vida do ator… foi uma feliz coincidência interpretar Getúlio e lançar o filme no ano em que completo 50 anos de carreira. Também vou estrear O Rebu, remake da novela de 1974. Estou muito feliz com o filme e a novela.

GQ – Quais são os outros personagens que você considera importantes?
Tony Ramos – Essa é difícil de responder. Tem Antônio Maria e Nino, o Italianinho, que fiz na TV Tupi. Na Rede Globo tem O Astro e Pai Herói, novelas da Janete Clair; os gêmeos Quinzinho e João Victor de Baila Comigo, do Manoel Carlos. Acho que o Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas, foi um divisor de águas na minha carreira. Fazer O Primo Basílio, do Eça de Queiróz, na televisão, também foi bastante marcante. E ainda tem os dois filmes Se eu fosse Você, o filme Chico Xavier… são muitos personagens, se eu escolho um parece que estou traindo os outros (risos).

GQ – Em 1988, seu personagem cômico Tonico, da novela Bebê a Bordo,causou uma enorme surpresa ao público, que até então estava acostumado a vê-lo interpretando papeis dramáticos. Hoje você é protagonista de comédias que são sucessos do nosso cinema – Se eu fosse você 1 e 2. Considera que foi nesta novela que houve essa virada do drama para a comédia na sua carreira?
Tony Ramos
– É verdade, o Tonico! Foi um momento importante fazer Bebê a Bordo. E você tem razão, hoje eu sou lembrado no cinema por uma comédia (risos). Mas eu não penso muito se vou fazer drama ou comédia. Eu procuro onde está o cerne da história. Tenho que achar algo cativante, que me motive e que surpreenda a mim e ao público, seja na comédia ou no drama. Quando entro no meu carro, não levo nada dos personagens, só fica o Sr. Antônio.

GQ – Se você pudesse definir seus 50 anos de carreira em uma palavra, qual seria?
Tony Ramos –
Perseverança. Nunca acreditar no sucesso e no glamour.

Publicado na GQ Online em abril de 2014. Confira aqui.

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